Perpétua estica a corda: ‘‘Está na hora do PT abrir mão da cabeça de chapa’’

Um Caminho sem volta. Assim é a pré-candidatura da deputada federal Perpétua Almeida a prefeita de Rio Branco. Filiada ao PCdoB, a acreana de Porto Walter, município situado na fronteira com o Peru, tem dito que está na hora de o PT abrir mão da cabeça de chapa para cedê-la a outro partido da Frente Popular.

perpetua“A Frente Popular tem um legado que é a nossa história de querer construir e está construindo um Acre melhor. E isso não pode ser jogado na lata do lixo porque um partido quer sempre tudo”, desabafou a deputada em entrevista exclusiva ao A TRIBUNA.

A história de vida de Perpétua Almeida começou a ser escrita nos movimentos religiosos e populares, passando pela luta sindical em defesa dos bancários, depois eleita, em 2001, vereadora por Rio Branco e, em seguida, conquistando três mandatos de deputada federal, sendo a mais votada do Estado nos pleitos de 2002 e 2006.

De acordo com Perpétua Almeida, o PCdoB não está querendo rachar a FPA, o PT é que quer dar demonstração de que deseja espatifar o projeto político. A deputada tem afirmado e reafirmado que o PCdoB continua defendendo a unidade. “Mas o que estou assistindo hoje na Frente Popular não é fruto de debates na militância e direções dos partidos. Não se faz sequer avaliações da realidade política da conjuntura atual. Não existem critérios justos de escolha onde se considere o rodízio, oportunidades entre os partidos, onde se leve em consideração ainda, o nome que tenha as melhores condições de garantir a vitória da Frente Popular”, pontuou a deputada.

A unidade pregada pelo PT, segundo Perpétua, é sempre em torno da candidatura deles. “Não acho isso correto. Não é democrático”, protestou.

Confira a entrevista exclusiva que ela deu à A TRIBUNA

A TRIBUNA – O PCdoB vem falando em manter a unidade da Frente Popular. Por isso, é inevitável a pergunta: se a senhora não for a escolhida pelos partidos da Frente para disputar a prefeitura de Rio Branco, aceitará o resultado ou insistirá em sua candidatura? Em suma, sua candidatura é para valer?

Perpétua Almeida – O PCdoB continua defendendo a unidade da Frente Popular. Mas o que estou assistindo hoje na Frente Popular não é fruto de debates na militância e direções dos partidos. Não se faz, sequer, avaliações da realidade política da conjuntura atual. Não existem critérios justos de escolha onde se considere o rodízio, oportunidades entre os partidos, onde se leve em consideração ainda, o nome que tenha as melhores condições de garantir a vitória da Frente Popular. O único critério hoje na mesa é o critério de que o PT não aceita abrir mão da cabeça de chapa. Mesmo que isso tenha ocorrido nos 20 anos, nas últimas cinco eleições. O discurso de unidade que o PT prega é sempre em torno da candidatura deles. E isso está acontecendo também na maioria dos municípios do Acre. Não acho isso correto. Não é democrático. Mas preciso afirmar aqui, que embora eu vá lutar com determinação e tranquilidade para mudar esse jeito de se fazer política dentro da Frente, a palavra final não será minha. Se depender de mim, o PCdoB, como outros partidos, podem e devem sair com candidaturas próprias no primeiro turno das eleições e nos juntarmos no segundo turno para garantir a vitória da Frente Popular.

A TRIBUNA – A senhora tem uma grande experiência parlamentar, especialmente em assuntos relacionados à questão feminina e também de segurança pública e criminalidade. Como ver a condição feminina hoje no Acre? Com a violência assumindo proporções cada vez maiores, como fica a mulher, como vítima e como criminosa nesse contexto?

Perpétua Almeida – Quando se trata de espaços de poder na política, no executivo, diria que estamos perdendo feio. É só lembrar aqui as tentativas frustradas da Naluh Gouveia, da própria Marina Silva e, agora, a minha luta, mesmo com a minha história política, não ser reconhecida pelos homens que comandam os partidos. A sensação que tenho, às vezes, é que esse exemplo positivo do Brasil de ter eleito a primeira mulher presidenta da República não serve para o Acre. Quanto à violência física, psicológica, é só olharmos os números, cada vez maiores de denúncias nas delegacias da mulher e lembrar que, muito mais do que os que estão lá registrados, outras tantas não chegam a prestar queixas. A mulher precisa ter oportunidade de emprego e renda para sair da condição de inferioridade, de vítima. O poder público precisa voltar seu olhar para a estruturação e paz nas famílias para que possamos diminuir esses índices de violência.

A TRIBUNA – Quais os principais problemas de Rio Branco hoje e quais as soluções que a senhora proporia para eles, se eleita?

Perpétua Almeida – Os que eu considero mais urgentes e importantes, citei numa pergunta anterior. As soluções não podem vir de palavras mágicas, mas na responsabilidade de querer resolvê-las buscando o jeito certo e aprendendo com as experiências positivas. A dinâmica da gestão pública exige determinação, coragem e parceria com a sociedade. Às vezes, assumir que não dá para resolver imediatamente é melhor do que ficar prometendo a solução. Rio Branco cresce a cada ano, virou referência no Brasil e na América Andina. Temos ainda muitos problemas, mas nada que não possa ser resolvido com a ajuda de todos, até daqueles que divergem de nós. O importante é ter meta: a de seguir avançando, melhorando cada vez mais.

A TRIBUNA – Seu partido controla o Ministério dos Esportes. Se eleita, o que a senhora poderia fazer para que a Copa do Mundo de 2014 tivesse algum reflexo positivo em Rio Branco?

Perpétua Almeida – Até já fiz várias tratativas para nos tornar, pelo menos, subsede. Mas isso depende também da vontade do governador. Ele elegeu outras prioridades e entendo. Posso continuar tentando. Mas essa não pode ser uma decisão unilateral.

A TRIBUNA – Há uma corrente de opinião no país que diz que, depois da eleição da presidenta Dilma se reforçaria a tendência para a eleição de mulheres nos vários níveis. A senhora acredita nisso e avalia que essa posição poderia ajudá-la?

Perpétua Almeida – Até já me referi a esse assunto mais acima. No caso do Acre, antes de esperarmos isso do eleitor, talvez tenhamos que fazer uma mudança na cabeça dos caciques que comandam a política. Mudar o modelo mental é, na minha visão, o maior desafio de uma sociedade. Alguns dizem até que as mulheres não sabem administrar. Já outros dizem que as mulheres têm mais sensibilidade. Eu olho as companheiras de todos os partidos, e nem são tantas, e até aquelas que ocupam espaços importantes nos ambientes de trabalho, e percebo o quanto o nosso jeito de fazer, a responsabilidade, a determinação e o caráter, são fatores determinantes para fazermos de um jeito diferente. Acredito que as mulheres, ao assumirem os espaços de poder, devem agir como mulheres: a coragem, a determinação, a ousadia e a sensibilidade de uma mãe.

A TRIBUNA – Rio Branco tem um forte eleitorado evangélico. A senhora teme que suas posturas progressistas e até mesmo a ideologia de seu partido afastem esse eleitor, até por pressão de setores conservadores?

Perpétua Almeida – Acho que se comete uma injustiça com os evangélicos quando são carimbados de não progressistas. O que não podemos exigir é que todos pensem iguais. Eu tenho muitos eleitores evangélicos. Em minha família, a maioria é evangélica. Tenho duas irmãs pastoras. Sei do quanto elas querem um mundo melhor para todos nós. Não acredito em transformação social sem a ajuda deles e de todas as igrejas. Quando quis debater os problemas das drogas no Acre, e para isso pus emendas parlamentares, foi nas igrejas que busquei os exemplos de dedicação e apoio. Hoje quem mais contribui com a paz social são aqueles que frequentam e se dedicam às suas religiões.

A TRIBUNA – Especificamente na questão do trânsito, como desafogar o Centro de Rio Branco e fazer o tráfego fluir em horários de pico? Qual a solução para isso?

Perpétua Almeida – A solução não tenho. Tenho ideias, opiniões. Aliás, nosso mandato está organizando um seminário com essa pauta, trazendo estudiosos sobre mobilidade urbana. Estou com viagem marcada a Curitiba, um dos melhores exemplos do Brasil e do Mundo, para conhecer e aprender como eles fizeram. A partir dessas experiências, vou incluir a sociedade de Rio Branco no debate. Mas precisamos ganhar a sociedade e o poder público para enfrentar alguns problemas: da madrugada até o amanhecer, milhares de bicicletas sobem a ladeira do Bola Preta, noutro lugar da cidade outras milhares descem o bairro das Placas e do São Francisco. A quantidade de motos cresce todo dia.

Hoje é mais fácil comprar um carro do que uma casa. E as ruas continuam do mesmo tamanho, a pressa é cada vez maior, o calor deixa a gente agoniada. Vi alguns adesivos em carros dizendo: “Gentileza gera gentileza”. Nosso trânsito também precisa ser assim.

A TRIBUNA – Como a senhora se posiciona em relação à reversão do abastecimento de água para o Estado?

Perpétua Almeida – Entendo a agonia e a pressa do governador Tião Viana e as respostas urgentes que o caso requer. Só isso justifica ele ter chamado para si um problema de responsabilidade do município. A população realmente não entende como nós, da Frente Popular, em oito anos governando o município e 12 o Estado, não conseguimos dar respostas mais satisfatórias para a situação de abastecimento na cidade.

A rede de abastecimento é antiga, o número de habitantes quase dobrou na última década e a demanda aumentou vertiginosamente. E não é só água sadia na torneira, mas também saneamento. Isso melhorará a saúde de todos. O governador Tião Viana é uma grande autoridade em saúde pública, acertou em cheio nessa medida.

A TRIBUNA – Como a senhora se posicionará na Câmara se a PEC 300, que aumenta o salário de policiais, for votada? O governo do Estado teria condições de bancar esses novos valores, mesmo com a ajuda da PEC 300?

Perpétua Almeida – Tenho sido uma militante na defesa da PEC 300. A Segurança Publica precisa ser prioridade nesse país. Não adianta cobrar de policiais para que se exponham correndo atrás de bandidos quando não têm salários que garantam a proteção de suas famílias. Quando se decide politicamente o que é prioridade, o financeiro tem que ser conduzido no mesmo eixo.

A TRIBUNA – Como a senhora vê as ameaças de ruptura e rachas na Frente Popular?

Perpétua Almeida – Depende. O que alguns chamam de rupturas, rachas, eu chamo de oportunidades para os partidos divulgarem suas propostas e disputarem espaços políticos. Se em 20 anos só um partido tem tido oportunidade para lançar cabeça de chapa, isso significa que os demais partidos não têm oportunidades para crescer. Ou seja, o engessamento dos demais partidos é líquido e certo. A Frente Popular tem um dono, que são os nossos eleitores. E se não tivermos a humildade de entender o recado que nos deram na eleição passada, significa que não estamos sensíveis e tampouco responsáveis pela política que reconstruiu o Acre. Temos um legado: é a nossa história de querer e estar construindo um Acre melhor. E isso não pode ser jogado na lata do lixo porque um partido quer sempre tudo.

A TRIBUNA – A senhora tem sido uma das campeãs de voto no Estado. Como é seu relacionamento com o eleitorado, especialmente o da Capital?

Perpétua Almeida – É corpo a corpo. Vou para a rua e peço voto, discuto, debato, não fujo de questionamentos, mesmo os mais difíceis. Tenho procurado ser verdadeira no que digo e no que faço para que possam continuar acreditando em mim. Trabalho bastante, me esforço, brigo pelo que acredito, mesmo que não saia vitoriosa. Exemplo disso é minha luta em defesa dos Soldados da Borracha, dos contaminados pelo DDT, por uma tarifa de energia justa. Enquanto não consigo, significa que tenho que continuar lutando, defendendo. Tenho um dever, que desde que pedi o primeiro voto faço questão de honrar: respeitar e tratar bem o eleitor que votou em mim e o que não me deu seu voto. Não sou só deputada dos que me elegeram, sou deputada dos acrianos.

A TRIBUNA – Que mensagem a senhora gostaria de deixar para o eleitor da Capital?

Perpétua Almeida – Na política, como na vida, o nosso compromisso tem de ser sempre com a ética, com a verdade, com a solidariedade, com a felicidade de todos. Aproveito também para deixar aqui Alberto Einstein: “A mente que se abre a uma nova ideia, jamais volta ao seu tamanho original”.