Crônica: Calça de moletom

 

by Maria Lúcia, edição

 

 

Autora:

Vivian Antunes

 

Lembro direitinho daquele dia.

Entrei em uma loja de sapatos em um shopping da cidade. Loja chique, sapatos caros.

Eu de tênis, camiseta, calça de moletom e rabo de cavalo. Até hoje eu me pergunto o motivo pelo qual eu andava na rua desse jeito. Calça de moletom, minha gente! Eu ia ao shopping de calça de moletom!

Antes de entrar na loja namorei a vitrine. Não só namorei, fiz um pedido de casamento ao sapato mais bonito, alto e caro.

Entrei.

No momento que entrei começou a guerra: uma vendedora olhou para outra e disse:

“Atende lá.”

“Eu não, vai você, é sua vez.”

A moça fez cara ruim, olhou para mim.

Quando elas viram que a da calça de moletom já tinha reparado a batalha, uma delas veio.

Acho que não foi a da vez. Não me lembro, já tem tempo que abandonei essas calças.

Sorrisinho amarelo no rosto:

“Pois não.”

Eu com a cara mais séria e de “estou ofendida” que pude fazer:

“Aquele sapato ali da vitrine, apontei para meu objeto de desejo, você tem 33?”

“Tenho sim.”

“Embrulhe, por favor. É presente.”

Incrível como todas as vendedoras que habitavam aquela loja vazia tiveram tempo para me olhar, oferecer água, café, puxar papo e tudo o mais que é feito quando o objetivo é bajular.

Recusei todas as ofertas com a educação de uma dama criada em colégio suíço.

“Cartão ou dinheiro?”

“Dinheiro.”

Quanto papo, minha gente, quanta atenção. Agora não precisava mais.

Peguei o precioso pacote, empinei o nariz e fui embora.

Um tempo depois a loja já não existia mais.

Escolheu atender, então faz direito, senão a loja fecha.