Acredite: Bolsonaro, presidente da república, lê carta de um suicida em live

cartasuicida

Uma vergonha mundial inqualificável uma atitude dessas de um presidente da república que lê carta de uma pessoa desesperada que teria se suicidado por conta do confinamento devido ao covid-19… – oestadoacre

carta
Bolsonaro lê carta de homem que teria se matado devido ao lockdown

Usar um suicida é amostra de que o horror bolsonarista não tem limite. Nós temos?

 

Nathalí Macedo, no DCM

Não há limites para a canalhice bolsonarista. Se você pensou que o “chega de frescura e mimimi, vai ficar chorando até quando?” [pelas mais de 270 mil mortes por coronavírus no Brasil] seria o máximo da necropolítica desvelada do governo Bolsonaro, enganou-se.

Agora, além de responsável direto por essas centenas de milhares de mortes (graças à sua política negacionista diante da pandemia), o Presidente da República ousa também usar a morte, pasme, como bandeira política.

Em live, Jair Bolsonaro divulgou a carta suicida de um feirante baiano que – endividado e impedido de trabalhar pela pandemia – tirou a própria vida. Adailton era querido na Feira de São Joaquim e deixa uma filha, a quem pede desculpas na carta divulgada por Bolsonaro em live. “Cansei de ser humilhado aqui na Feira”, escreveu o feirante, que também culpou o lockdown pela situação que então o levava ao suicídio, razão pela qual a família Bolsonaro enxergou no caso uma oportunidade para atacar a medida.

Não se divulga carta suicida. Muito menos em um país onde o suicídio parece por vezes uma alternativa tão atrativa diante do caos. Mas o bolsonarismo, adivinhem, não se importa. Ao expor o caso para atacar o lockdown, Bolsonaro tentou fortalecer o argumento de que “o efeito colateral do lockdown está sendo mais danoso do que o próprio vírus”, defendendo que apenas idosos e pessoas com comorbidades deveriam ficar isoladas em casa. O resto, que arrisque a vida pra sobreviver (e isso é tão contraditório quanto o próprio bolsonarismo).

Ao lado de Jair, compactuando com o uso político da morte de um ser humano para atacar medidas de contenção de uma pandemia, estava o médico Marcelo Morales, Secretário do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. Um profissional da saúde, que deveria estar na linha de frente contra o vírus, cumprindo seu dever ético de salvar vidas, em vez disso se sujeita a ser um dos capangas da necropolítica bolsonarista.

Tal qual urubus em torno da carniça, Bolsonaro e seus lacaios se aproveitam da dor de uma família enlutada  para fazer o que faz de melhor: jogo político sujo.

Ao atacar o lockdown na Bahia, para além de reafirmar seu negacionismo e fortalecer a ideia de privilegiar o mercado em detrimento de vidas humanas, Bolsonaro intenciona também atacar Rui Costa, o governador petista e um de seus principais oponentes políticos no nordeste.

Na Bahia o lockdown vai até o dia 15 de março, podendo ainda ser prorrogado novamente, como tentativa de reduzir as mortes pelo vírus e atrasar o colapso inevitável do sistema de saúde do estado. De que outra arma dispõe um governador para tentar conter uma pandemia em um país cujo governo parece trabalhar a favor do vírus (e da morte)?

Graças ao negacionismo bolsonarista e à ausência de medidas eficientes de contenção da pandemia por parte do governo federal, vivemos no Brasil o pior momento da pandemia. Pico de mortes, falta de leitos, gente morrendo por falta de oxigênio em Manaus.

Enquanto isso, o Ministro da Saúde confunde Amazonas  e Amapá e manda as vacinas pro lugar errado. “O Brasil tá lascado”, alguém diria.

O mais chocante nisso tudo é que, mesmo diante das centenas de milhares de mortes e de um governo que não apenas não combate a pandemia como também sabota quem tenta combatê-la, não esteja claro para todas e todos os brasileiros que vivemos sob a égide de um Estado necropolítico.

Quem sabe Bolsonaro precise mesmo divulgar uma carta suicida como forma de atacar o lockdown para que as pessoas entendam. Não basta chamar de “gripezinha” e propor, junto com seus comensais da morte, um miserável auxílio emergencial de 250 reais – que, do jeito que anda a inflação, não daria pra alimentar uma família nem por uma semana, quem dirá pagar dívidas de um feirante para que ele, cansado da humilhação (de ser brasileiro?) não tirasse a própria vida.

Adailton culpava o lockdown, a falta de movimento na feira, o prefeito, o governador.

Como ele, tem muita gente que apanha tanto que não consegue identificar de onde vem a porrada. Endividado, desesperado e no fim da linha, Adailton não se deu conta de que o que mata não é o lockdown, é o vírus. É o negacionismo. É o auxílio emergencial de 250 reais. O que mata é viver num país que não ampara seu povo em um momento de catástrofe: em vez disso, deixa-o morrer à própria sorte, sem oxigênio ou sem sustento, pouco importa.

Assim como tantos outros, Adailton não sabia a quem culpar, nem pra onde ir, e agora está a sete palmos do chão, como as quase 280 mil pessoas mortas por coronavírus no Brasil. Ele não viveu o suficiente para aprender, mas nós ainda podemos: quando você é pobre em um país como o Brasil, infelizmente, uma coisa que você precisa saber é culpar as pessoas certas.

A verdade é que os governos estaduais estão de mãos atadas diante do negacionismo de Bolsonaro face ao coronavírus: não apenas na Bahia se tem feito o possível para perder menos vidas humanas, mas com o presidente literalmente jogando contra, não há muito o que se possa fazer.

Bolsonaro não apoia o lockdown, a vacina e o distanciamento social porque tem a morte como projeto. Sua postura diante da pandemia não é apenas “incompetente” – o que suporia que ele se esforça em algum nível – é também desumana e, não tenhamos medo de dizer, genocida.

Em um governo necropolítico, chorar por nossos mortos é “mimimi”, mas usá-los em um jogo político rasteiro é admissível.

Genocida é pouco. O que governa meu país ainda não tem um nome.