Crônica de Dandão: A instituição do furo

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A instituição do furo

 

dandãoFrancisco Dandão – Um dia desses da semana que recém passou, o ex-goleiro Milton, aquele que passou mais de mil minutos sem sofrer gols quando defendia o Juventus-AC, na década de 1970, postou uma foto dele numa rede social fazendo uma defesa, numa bola cruzada. Belo flagrante, importante registro.

Ao fundo da foto, via-se a parte das arquibancadas do estádio José de Melo chamada Vietnã (sabe-se lá por quais motivos alguém a denominou assim) tomada de torcedores. Muita gente mesmo, uma vez que os jogos do Juventus, não por acaso denominado Clube do Povo, atraíam multidões.

Até aí, tudo certo. A fotografia por si só já evocava um tempo em que as tardes de domingo no Acre eram dedicadas ao futebol. Muita empolgação e rivalidade embalavam as retinas de todos os que se dirigiam à referida praça esportiva. Mas, além do retrato, alguém fez um comentário interessante.

O comentário, feito pelo hoje ilustre causídico Jorge Carlos Maia, conhecido nos seus tempos de jogador de futebol de salão como “Jorge Piaba” (ele chegou até a defender a seleção acreana, viu?), dava conta de que toda a galera que aparecia no fundo da tal foto havia “furado” aquele jogo.

Segundo o que o doutor Jorge Carlos Maia escreveu, “na arquibancada atrás do gol, direção à piscina do Rio Branco Futebol Clube, a moçada lisa do bairro José Augusto, [estava] todinha! Tínhamos acabado de furar e assistimos esse jogaço!” E, continuando na lembrança, disse: “Foi ontem!”

O “furo” era uma instituição do futebol acreano entre as décadas de 1960 a 1980. Os muros do estádio José de Melo eram tomados de buracos (a maioria feita pelos próprios furões) por onde a galera, principalmente meninos e adolescentes (alguns adultos idem), entrava sem pagar ingresso.

Às vezes, os mandantes das partidas escalavam vigias para deter a evasão de rendas ocasionada pelos “furões”. Mas era uma medida um tanto inócua porque os tais vigias, não raro, fingindo uma distração qualquer, “abriam as pernas” para deixar os “lisos” terem acesso às arquibancadas.

A instituição do “furo” chegou a tal ponto de sofisticação que, lá pelas tantas, foi criada uma espécie de “bilheteria paralela”, instalada na parte do muro que dava para a rua Marechal Deodoro. O mecanismo era simples: quem quisesse “furar” por ali, pagava 20% do valor do ingresso normal!

Tudo isso ficou para trás. Nos estádios acreanos atuais não existem mais buracos nos muros. Certamente ainda existe quem entre sem pagar, apresentando uma carteira de qualquer coisa. Mas isso não tem graça nenhuma. Bom era passar pelo buraco e sair correndo para as arquibancadas!

Francisco Dandão – professor, escritor, compositor e tricolor