Infectologista do Acre é selecionado para Fórum de Pesquisadores da Sociedade de Hepatologia

Infectologista do Acre é selecionado para Fórum de Pesquisadores da Sociedade de Hepatologia

O médico infectologista Thor Oliveira Maia Dantas é o primeiro hepatologista de direito do Acre. Segundo a Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) o primeiro infecto-hepatologista do país – uma exceção na origem, já que maioria dos que optaram pela área vieram da gastroenterologia. Na tarde desta sexta-feira, 30, ele apresenta, para um grupo restrito composto pela comunidade científica brasileira durante o I Fórum de Jovens Pesquisadores da SBH em São Paulo, trabalho selecionado sob rigoroso critério de avaliação, segundo nota enviada ao autor pela SBH.

thor_mdicoAos 39 anos, prova, com sua pesquisa “Aspectos Epidemiológicos da Infecção pelo Vírus da Hepatite C e Coinfecções com os Vírus B no Estado do Acre, Amazônia Ocidental Brasileira”, o que indicavam os estudos preliminares: a alta prevalência das hepatites no Acre. O trabalho também aponta as causas dessa infecção no Acre, que chega ao índice de 4,2%, quando a média do país é de 1,4%. “É um valor que se destaca mundialmente”, alerta o médico.

Uso de drogas é citado como fator de risco que contribuiu para a contaminação de parte expressiva da população há cerca de 30 anos, quando não havia medidas sanitárias de prevenção nem tratamentos adequados. A tese confirma que as hepatites B e Delta, típicas da região Amazônica, também são muito comuns no Estado.

“O cenário é preocupante: temos muito no Acre das três hepatites crônicas [B, C e Delta]. Esses achados explicam por que existe tanto problema de fígado no Estado. A cirrose e o câncer de fígado são complicações das hepatites crônicas e por isso são tão comuns na região”, explica o pesquisador, que antes de se aprofundar no estudo das hepatites iniciou busca por conhecimentos científicos ainda na graduação, com pesquisa sobre contaminação por mercúrio e, em seguida, no mestrado, sobre doença de Chagas.

Dantas coordenou há menos de um mês um simpósio sobre diagnóstico e tratamento de câncer de fígado, evento realizado como parte da programação da VII Jornada de Residência Médica do Hospital das Clínicas do Acre. De 20 a 23 de novembro foi instrutor em Belém (PA) da Oficina de Atualização do Manejo Clínico da Hepatite C para 50 médicos da Região Norte, entre os quais nove acreanos, sendo três do interior do Estado.

Novo momento e pioneirismo

O infecto-hepatologista representa um novo momento da medicina tropical no Acre, quando há cenário propício para a pesquisa e discussão de casos, atualização profissional da equipe médica, investimentos do Estado em equipamentos, medicamentos, infraestrutura hospitalar, com recursos e projetos próprios ou por meio de parcerias. Um exemplo disso foi a parceria estabelecida com a instituição francesa Fundação Merieux para a construção de um laboratório de pesquisa de virologia biomolecular. A unidade será responsável pelo desenvolvimento de pesquisas em sorologias para doenças endêmicas, vacinas e exames complexos. São mérito do Acre a inserção pioneira de medicamentos no serviço público de saúde, como o Interferon, para tratamentos da hepatite e a responsabilidade sobre as mudanças de estratégias de tratamento.

Thor Dantas já assumiu o cargo de secretário de Estado Adjunto de Saúde, durante a gestão do governador Binho Marques. Atualmente é professor do curso de Medicina da Universidade Federal do Acre (Ufac).

hepatiteConfira a entrevista:

O que essa pesquisa representa? Quais os aspectos epidemiológicos importantes e particulares da região amazônica?

A pesquisa objetivou estudar pela primeira vez a ocorrência de hepatite C na população geral do Estado do Acre. Já havia estudos prévios sobre a prevalência da hepatite C entre populações selecionadas, como profissionais de saúde, doadores de sangue e pacientes hepatopatas, e também entre a população geral da capital Rio Branco. Porém, entre a população geral do interior do Estado não havia estudos. O trabalho objetivou também estudar a ocorrência concomitante da hepatite C com as outras duas formas de hepatites crônicas existente (a hepatite B e a Delta, típicas da região).

O meu trabalho de doutorado confirmou que a prevalência é mesmo bastante alta aqui. De fato, o Estado do Acre exibe a maior prevalência de hepatite C do Brasil. A prevalência media do país é 1,4%, e no Acre foi 4,2%, o que é muito. Na verdade, é um valor que se destaca mundialmente.

O motivo de haver tanta hepatite C aqui no Acre está  relacionado ao uso de injeções “não seguras” no passado – as velhas seringas de vidro, com agulhas reutilizáveis, que disseminaram muito a doença por aqui. Era um período em que os serviços de saúde eram incipientes, iniciantes e pouco organizados. Também foi um período em que se abusou de tratamentos injetáveis. Tudo era tratado com injeções, muitas vezes desnecessárias. O exemplo do Gluconergan é típico. Foi um energético muito utilizado no passado por jogadores de futebol, foliões de carnaval ou simplesmente por quem queria tomar umas vitaminas para ficar com mais energia. O problema não era o Gluconergan em si, mas as seringas que eram utilizadas para aplicá-lo.

Também foram fontes de transmissão importante no passado: transfusões de sangue, dentistas, manicuras, barbearias, cirurgias, endoscopias, tatuagens, uso de drogas, enfim, qualquer procedimento que corte ou perfure a pele, trazendo risco de transmissão.

Um aspecto interessante da epidemiologia das hepatites virais crônicas na região é que, apesar de ter muito dos três vírus (B, C e Delta), eles não circulam muito juntos, ou seja, as coinfecções [ocorrência ao mesmo tempo de mais de um vírus] não são tão comuns quanto se esperaria. Isso ocorre porque os fatores de risco são diferentes. A hepatite C veio de fora – foi introduzida aqui com a colonização e se disseminou através dos procedimentos perfuro-cortantes. Já as hepatites B e Delta são próprias da região, pois nasceram aqui e aqui estão há muitos anos, sendo transmitidas mais familiarmente, seja por via sexual, seja de mãe para o filho ou mesmo de criança para criança no contato íntimo da infância, brincando e dormindo juntas.

O quanto se avançou no estudo sobre as doenças hepáticas no Brasil?

Avançamos muito. As doenças hepáticas experimentaram um dos maiores crescimentos de conhecimento recente de que se tem notícia em todo o mundo e também no Brasil. Até uns 30-40 anos atrás, quase nada se sabia sobre hepatites virais. A própria hepatologia era tida como um anexo da gastroenterologia, de menor importância. Isso mudou radicalmente. Hoje a hepatologia se afirma como área do conhecimento, independente, e busca se tornar especialidade médica, como a nefrologia e a mastologia, para citar dois exemplos de especialidades dedicadas a um único órgão. E o Brasil é líder nessa área. Temos hepatologistas de renome mundial em atuação no país

O que representa esse fórum da Hepatologia e uma premiação nesse contexto?

Esse fórum representa de um lado a constatação da importância crescente da hepatologia como área de conhecimento médico independente, atuante e relevante para a sociedade. De outro lado, representa a iniciativa da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) de incentivar os jovens talentos, aqueles que darão continuidade a essa trajetória de destaque que a hepatologia vem tendo. Identificar jovens talentos e incentivá-los é uma atitude inteligente de qualquer sociedade que vise o crescimento e o seu desenvolvimento científico e cultural.

Para nós do Acre, estarmos entre os premiados, ao lado de trabalhos produzidos em todo o Brasil, vindos de grandes centros com tradição em pesquisa, representa o reconhecimento de que estamos fazendo um bom trabalho, que superamos as dificuldades naturais de um pequeno Estado amazônico periférico e conseguimos imprimir qualidade no que fazemos. Temos o que mostrar para o restante do país e do mundo, e eles estão interessados no que fazemos aqui.

Como está  o Acre em relação ao restante do país no tratamento das hepatites?

Nosso grupo de médicos dedicados às hepatites no Acre [Cirley, Judith, Martoni, Rita, Suiane, Diógenes, Danielly, Marysom, Francileide e toda a nova geração de residentes e ex-residentes] vai a todos os congressos e encontros nacionais e internacionais da especialidade. Conhecemos as realidades de diversos serviços, e posso afirmar, sem medo de errar e sem falsa modéstia, que o Acre é modelo no que tange ao tratamento das hepatites virais crônicas.

Conhecemos as realidades de diversos serviços e posso afirmar sem medo de errar e sem falsa modéstia que o Acre é modelo no que tange ao tratamento das hepatites virais crônicas, Thor Dantas.

A própria Sociedade Brasileira de Hepatologia reconheceu isso recentemente em um contundente artigo que compara o trabalho feito no Acre com serviços do Centro-Sul do país.

Fomos pioneiros no uso do Interferon no serviço público, a primeira medicação disponível para o tratamento das hepatites virais, e mantivemos até hoje o pioneirismo de incorporação de todas as medicações novas, bem como todas as mudanças de estratégias de tratamento que o conhecimento científico em permanente evolução aponta.

É possível ser médico e cientista no Brasil? A qual área você tem se dedicado mais?

Não é fácil ser pesquisador no Brasil. Isso é fato. Faltam investimento estratégico e também uma legislação que facilite a condução da pesquisa científica. Um pesquisador enfrenta as mesmas incontáveis barreiras burocráticas de qualquer órgão público. Isso desestimula. Pesquisador gosta de pesquisar, não de enfrentar burocracia. Na Amazônia, então, os desafios são ainda maiores, pois os recursos se concentram no Centro-Sul, e se torna quase impossível vencer editais nacionais. A competição é desleal.

 

Exercer a medicina, pesquisar sobre o que se pratica e ensinar o que se exerce e pesquisa formam o tripé essencial que sustenta a medicina como ciência e que estamos construindo no Acre nos últimos 10 anos.

Claro que somos todos muito mais médicos do que pesquisadores aqui no Acre, pois as carências assistenciais são muitas. Mas é possível ser médico e pesquisador, claro. Mais do que possível, é importante que consigamos tentar unir essas duas atividades com a terceira, que é o ensino. Exercer a medicina, pesquisar sobre o que se pratica e ensinar o que se exerce e pesquisa formam o tripé essencial que sustenta a medicina como ciência e que estamos construindo no Acre nos últimos 10 anos.

Porque o senhor escolheu a hepatologia para atuar?

Eu não escolhi a hepatologia, ela que me escolheu. Eu escolhi ser infectologista. Identifiquei-me com a especialidade ainda na faculdade. A disciplina de infectologia é muito forte na UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], de longe a cadeira mais exigente, mais “puxada”. Estudei tanto que gostei muito. A infectologia abrange um escopo de conhecimentos muito vasto e muito heterogêneo [vírus, bactérias, fungos, protozoários, metazoários, imunologia, farmacologia…]. Infectologistas costumam ser reconhecidos por seus pares como profissionais competentes, cultos e possuidores de conhecimentos e habilidades muito úteis para todos, e isso me atraía também para a especialidade.

Há uma piada da especialidade que denota a sua importância: “Toda doença é infecciosa, só falta descobrir o agente”. De fato, um grande número de doenças, de cânceres à úlcera de estômago, hoje é reconhecido como causado por agentes infecciosos.

A hepatologia veio como consequência da realidade na qual estou envolvido. Aqui no Acre, em função da elevada prevalência das hepatites virais crônicas, todas as complicações da cirrose hepática foram desde sempre cuidadas pelo infectologista, o que não ocorre nos demais centros. A cirrose hepática geralmente é cuidada pela clínica médica, mas aqui no Acre, até pela inexistência da clínica médica como especialidade [até a criação de sua Residência em 2002], sempre foi do infectologista.

O fato é que, em função da realidade, todo infectologista no Acre é meio hepatologista. Acabei assumindo isso, dediquei-me ao estudo das demais doenças hepáticas não infecciosas, fiz a prova de tíitulo da especialidade este ano e fui aprovado. Virei hepatologista de fato e de direito.

Quais são suas metas profissionais daqui para frente?

Minha visão é montarmos o primeiro serviço de Infectologia e Hepatologia Tropical do Brasil aqui no Acre em 2013. Temos o apoio da SBH e do hovernador Tião Viana – aliás, um dos pioneiros no cuidado dos hepatopatas no Acre, ao lado do colega e deputado Eduardo Farias. Vamos juntar a infectologia, a dermatologia, a gastroenterologia e a hepatologia, colocando juntos clínicos, cirurgiões, endoscopistas, radiologistas, todos em torno do paciente. O paciente é o centro do cuidado, não o médico, não a especialidade. Será a primeira vez que um serviço se organizará com essa lógica no Acre. Acredito muito nisso como um caminho para a evolução de nossa prática médica pelos próximos anos.

Estamos à frente também da organização do 50o Congresso Brasileiro de Medicina Tropical, que ocorrerá em 2014 aqui no Acre. É um evento de grande porte, de uma das mais tradicionais sociedades científicas do país, a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical [SBMT], que marcará tanto o Estado quanto a SBMT. Ao longo de seus 50 anos, só houve dois congressos na Amazônia – Belém [PA} e Manaus [AM]. Espero fazermos um evento histórico com valorização da Medicina Tropical não infecciosa e um forte enfoque amazônico. A medicina tropical é a que interessa para dois terços da população do mundo.

O que mais o emociona na profissão?

Depende de dom. Mas, para mim, o mais importante aspecto dessa profissão é que nosso negócio não é a fisiologia, a farmacologia ou a técnica cirúrgica, nosso negócio é gente. O contato médico-paciente é mágico. A entrega que o paciente faz de sua intimidade, de sua vida em nossas mãos e o retorno de gratidão que nos dá pela doença que conseguimos prevenir, curar ou amenizar são verdadeiramente emocionantes.