Artigo: O conhecimento: novo foco de poder

Artigo, por Sibá Machado, publicado em 2005

Tradicionalmente as sociedades se revezam nas estruturas de poder (qualquer forma de poder) utilizando basicamente três métodos: a força (inteligência bélica), a economia (inteligência comercial/financeira) e o conhecimento (inteligência científica/tecnológica).  Trabalhar a geoestratégia significa pensar o longo prazo com os pés no presente e acima de tudo com um forte viés nacionalista mesmo em ambientes globalizados.  A associação de capitais de qualquer natureza no regime capitalista impõe a figura do domínio de poder, vide o caso dos percentuais de participação capitalista e a competitividade em suas relações.  Todas as relações por sua vez requerem a liderança de processos obedecendo assim as leis da dialética e tudo isso irá determinar a necessidade de aperfeiçoamento e excelência de processos como forma de sobreviver à competitividade e esta competitividade torna-se uma seleção natural para as economias, as instituições, os povos, as nações e as sociedades em geral.

Observando a liderança mundial capitalista desde sua criação, vimos o despontar da Inglaterra, os ensaios da França, a emersão dos EUA e as tentativas bélicas alemã, italiana e japonesa.  Em todos estes casos, os três métodos de ocupação de poder foram utilizados: a força bélica, a força econômica e a força técnica/científica.  Porém foi ao final da segunda guerra mundial onde a corrida tecnológica foi ao apogeu.  O Japão toma a decisão de abandonar a luta militar e adota a competição tecnológica; os norte-americanos também, porém, mantendo a tática das guerras regionais; os alemães iniciaram juntamente com franceses e ingleses a Comunidade Econômica do Carvão e do Aço – CECA (esta veio a se tornar a atual União Européia) e os russos partiram para a corrida aeroespacial durante a guerra fria.

Note-se que a partir destes cenários, surge como nova geopolítica mundial a figura dos blocos econômicos que se transformaram na nova coqueluche dos estrategistas de todas as matizes.  A proliferação dos blocos econômicos surgiram como praga em todos os continentes com o discurso estritamente comercial.  Nasce assim a União Européia, o Nafta, a Apec, o Mercosul e outros, todos com o propósito de defender seus interesses internos e dominar outros povos e territórios.  A economia passou a estudar duas cartilhas de poder: O sistema neoliberal, no qual a economia é organizada pela iniciativa privada e o sistema desenvolvimentista no qual a economia recebe a intervenção do Estado como planejador e normatizador.  Mais recentemente, o receituário neoliberal se revelou incapaz de resolver os problemas do povo e no Brasil, aos poucos a regra desenvolvimentista retoma o rumo do país.

Até o surgimento do capitalismo a ciência era prioritariamente pura, interferindo pouco no dia-dia da sociedade, muitos de seus gênios eram tratados como bruxos e bruxas, sendo queimados vivos.  Os livros e bibliotecas que possuíssem obras não aceitas pela igreja eram destruídos e seus autores perseguidos.  Assim foi a situação daqueles que tentavam explicações para a natureza e a sociedade.  O século XVIII foi considerado o século das luzes, quando a burguesia ocupou o poder em nome da liberdade, igualdade e fraternidade.  A partir de então nasce a ciência aplicada em seu esplendor e em todos os ramos do conhecimento humano.  O sistema feudal sucumbiu ao sistema capitalista que passou a incentivar a competitividade como critério de força e poder.

Mas foi no século XX que a ciência aplicada encontrou terreno fértil.  O sistema capitalista precisava de mercados cada vez maiores, precisou acelerar mais e mais os processos produtivos, reduzir custos aumentando a produtividade, as pessoas entrando no ritmo das máquinas, a urbanização determinando os padrões sociais e de vida e por fim, a ciência aplicada passou a ser instrumento de trabalho da economia e do poder.  Embora o século XX tenha protagonizado as duas maiores e mais violentas guerras, foi a força do capital financeiro que dominou o sistema neste século.  Os prognósticos apontam agora para uma nova acomodação de poder: o bloco econômico Nafta que compreende os países do norte das Américas tem um PIB próximo de 10 trilhões de dólares, o bloco econômico União Européia que compreende os países do continente europeu tem um PIB próximo de 8 trilhões de dólares, calculam que nos próximos 40 anos serão superados pela Ásia especialmente pela China e para não perderem o comando do mundo vão trabalhar para concentrar o maior capital técnico/científico e continuar dominando através do conhecimento.

Neste cenário, chamo a atenção dos gestores de processos de nosso Estado para acompanhar a onda dessa nova ordem mundial.  Se este é um cenário para os estrategistas nacionais enfrentar os desafios perante o mundo, penso que também deve ser nosso papel pensar o Acre nos desafios perante o país.  Assim sendo, julgo de suma importância colocar no planejamento estratégico do Acre o fortalecimento da ciência pura e aplicada pensando e agindo sobre nossa economia e sociedade, solidificando a florestania como o projeto viável de sociedade.  Os sinais já estão postos: Na Ufac, a criação do Instituto da Biodiversidade em Cruzeiro do Sul (Universidade da Floresta); a decisão de nossa bancada para financiar a implantação de três cursos de mestrado e a interiorização, a instalação do curso de Medicina, a instalação de diversos laboratórios, melhoramento das condições da biblioteca e outros investimentos importantes.  Na Embrapa, inicia-se investimentos voltados à difusão de tecnologias na agricultura familiar e na Funtac, investimentos para a pesquisa de combustíveis limpos (biodiesel).

Tenho hoje muitas convicções da possibilidade de se fomentar investimentos produtivos de base familiar própria ou em parceria com empresas, nos moldes da Brasil-Ecodiesel que opera nos Estados do Nordeste.  A economia do Acre é obrigada a crescer e sair da extrema dependência do poder público.  O projeto Acre estabelecido pelas forças políticas atuais foi gestado no ventre das mobilizações populares durante a sedimentação do Estado especialmente nas décadas de 1970 e 1980, consolidando-se em experiências de governo desde 1993.  Ao propor a ruptura política, surge agora a necessidade de se romper também com o pensamento econômico atrelado.  Este tem sido o maior dos desafios.  O projeto de economia para o Acre está embasado na maior abundância de seus recursos naturais: a floresta, assim sendo, a flores-tania deve ser colocada também na prática econômica.  Por fim, se não queremos o poder pelas armas, se não temos muito dinheiro e se é seguro acreditar nos prognósticos citados, aconselho o caminho do poder pelo conhecimento.