Prefeito pede demissão de jornalista e é atendido (filme se repete)

Boa noite…não deu para estar hoje durante o dia aqui no blog dos melhores leitores..sabe como é: nossa equipe é muito grande e a brava Maria Lúcia teve que resolver umas coisas pessoais também.

Mas vamos ao Rio de Janeiro…com o prefeito pastor…

Marcelo Crivella, pastor da Universal e prefeito do Rio, pediu (embora negue, o que é previsível) e foi atendido a cabeça de um repórter do jornal O Dia.

Esse filme é conhecido aqui entre nós.

Governantes medíocres que gostam de pedir demissão de jornalistas/radialistas que não se rendem a seus ditames.

Como diz o F. Brito, do Tijolaço, ‘jornal (ou rádio) que entrega cabeça de repórter já entregou a sua própria.’

Leia texto do excelente jornalista Nilson Jaje, no seu facebook:

J R Brãna B.

 

Um O Dia como outros dias do jornalismo

 

Nilson Laje

A história recente do jornalismo brasileiro fala de muitos perdedores, Alguns assombram prédios-monumentos: o da Rua do Riachuelo, onde ficava o Diário de Notícias; o da Avenida Gomes Freire, do Correio da Manhã; aquele grande, na Zona Portuária, para onde se mudou o Jornal do Brasil quando vendeu a sede original, na Rio Branco. Outros, muitos outros, podem ser lembrados em pesquisa nos cartórios onde se processam, por décadas, rumorosas falências.

Instado a demitir um repórter pelo prefeito do Rio, O Dia poderia ter-se feito herói, erguer o facho simbólico que ilumina os mártires e convocar o agente funerário que anda muito ativo nessa área. Para o jornal-empresa, a simpatia do prefeito, homem do Partido Evangélico, o único organizado que confronta o Império Marinho, é mais que necessária – é o fio político em que se pode agarrar.

Terá, decerto, a simpatia de seus leitores, que são muitos, mas moram naquele Rio sem poder e sem camisa da CBF, do outro lado do túnel. A elite carioca sofre de mal similar à síndrome de Estocolmo: sabendo quem a põe cativa, pelo algoz é cativada: só lê o Globo, a Folha, o Estadão, em papel ou na Internet. Comenta, reproduz, cita, contesta… chama-se a isso agenda setting. Os Marinho, o Frias, os Mesquita, o Alckmin, o Aécio, a Fiesp, o Departamento do Estado e Wall Street em peso agradecem penhorados.

Os personagens do Dia são mulheres “gostosas” e sujeitos testosteronados, bandidos simples (não estelionatários de luxo), gente do samba e do funk. Noticia trens, Xuxa, Gretchen, pagamento de atrasados do funcionalismo – enfim, trata do mundo real da cidade – e faz isso há muito tempo, desde o populismo de Chagas Freitas. Trata também de assuntos complicados que afetam o povo: previdência, leis do trabalho, acesso ao ensino. Mas, que pena, não faz parte do cardápio da elite, esquerda ou direita. Por isso mesmo, as Organizações Globo deixaram que existisse, como a TV do Silvio Santos ou a Band. Campeões precisam de sparrings.

No episódio da demissão do excelente repórter – tenho memória de tantas outras similares, como a do velho companheiro Caó (Carlos Alberto Oliveira, que foi presidente do Sindicato, deputado e secretário do trabalho de Brizola) , demitido do JB porque corrigiu uma citação errada de  (Max) Weber pelo Ministro Delfim Netto durante uma entrevista – há um traço diferente: Caio soube do motivo.

Poderiam ter armado um teatro, demitir junto dois ou três bagrinhos alegando motivos financeiros ou coisa parecida; sustentar um álibi plausível, como se tem visto em casos recentes. Não fizeram isso. Foram ingênuos – ou honestos.
Melhor assim.

PS. Não demorou e veio a desculpa esfarrapada que se esperava, em uma espécie de nota oficial do jornal que nega o fato político inegável. A linguagem é a de “adevogado” – aquele picareta letrado que arma discursos para esconder a sacanagem do cliente.