Carta: A luta é árdua, mas venceremos a extrema-direita

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Poucos países perderam tanto em tão pouco tempo. Não me recordo de nenhum outro que tenha passado por desastre de tal magnitude’

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Milton Rondó
Carta Capital

Entre luzes e trevas, seguimos neste túnel que ainda nos levará à vitória sobre a extrema-direita no Brasil e no mundo.

A luta será árdua e longa, mas a vitória é certa, como foi na Argentina, no Chile, na Bolívia e nos Estados Unidos.

Receberemos um país diminuído ao seu mínimo: de 6a maior economia do mundo nos governos Lula e Dilma, para 12a, sob a extrema-direita incompetente de Bolsonaro e Guedes.

Poucos países perderam tanto em tão pouco tempo. Não me recordo de nenhum outro que tenha passado por desastre de tal magnitude.

Desse ponto de vista, a intervenção militar que autorizou o golpe de estado de 2016 demonstra-se ainda mais nefasta do que o golpe de 1964, ao final do qual o Brasil era a 8a economia do mundo.

Confirma-se que todos os golpes militares – de 1889, 1964 e 2016 – resultaram em enorme fracasso socioeconômico.

O preço dos naufrágios, porém, é sempre pago pelo povo, cada dia mais paupérrimo. Já os que ocasionaram estão cada vez mais privilegiados, em soldos, pensões etc.

Ao lado dessas trevas, temos aquelas literais, delas resultantes, pela entrega do patrimônio público à privatização: o estado do Amapá passou quase uma semana às escuras, por causa da incúria da empresa espanhola concessionária.

Para o conserto, foi convocada a estatal Eletronorte.

Vale notar que o mesmo ocorre com o Sistema Único de Saúde: as intervenções mais complexas não são feitas pelo sistema privado, mas pelo público.

Sobre o descalabro no Amapá, que deixou UTIs – inclusive neo-natais – às escuras, nem uma palavra dos militares nacionalistas, o que parece indicar que já não os há, como desconfiávamos.

Com efeito, como permitiram que o país chegasse tão baixo, completamente indefeso com relação a governos e empresas estrangeiras.

Os erros foram tais que comprometem a seriamente uma relação frutífera com o novo governo dos EUA, o país mais importante do Hemisfério.

Com nossos vizinhos, o desastre não é menos profundo: todas as apostas da diplomacia brasileira resultaram em fracassos.

No caso da Venezuela, foi-se ainda mais longe, com provocações na fronteira, algumas delas milionárias, como as recentes manobras militares contra um inimigo imaginário, as quais custaram fortunas aos cofres públicos, além de imenso desgaste internacional.

Quanto à Bolívia, além de ter conspirado para o golpe, o país se fez representar na posse do novo presidente pelo nível diplomático mais baixo, o embaixador em La Paz.

Até os EUA, igualmente golpista, mandaram um vice-ministro, chefiando delegação especial.

A Espanha mandou o próprio rei, acompanhado do vice-chefe de governo, do Podemos.

A Argentina, o próprio presidente, ovacionado.

Até o Chile, que mantém apenas relações consulares com a Bolívia, pelo diferendo fronteiriço, mandou seu chanceler.

Somos um pária, cada dia mais pária.

Entretanto, até na noite mais trevosa a luz se insinua.

A mudança de orientação política na Casa Branca transforma por completo a situação da colônia. Tal não seria se não estivéssemos reduzidos à situação de vassalos, sem defesa ou política externa próprias.

A extrema-direita local não poderá se sustentar sem apoios externos, que a permitiram reemergir da cloaca da história.

No entanto, haverá muito trabalho a ser feito, principalmente no que tange às eleições municipais.

Em São Paulo, Boulos e Luiza; no Rio, Benedita; em Porto Alegre, Manuela e Rossetto; no Recife, Marilia; em Vitória, Coser; em Fortaleza, Luiziane.

Depois dos pleitos, muita conversa, muita costura, muita altivez para formar a frente ampla democrática contra o fascismo.

Sem ilusionistas, como Huck e Moro, combinação do dedo podre com o todo podre.

Esses, como as oito famílias donas da grande imprensa nacional, só geram ilusões, que, na prática, redundam em sacrifícios, vergonha e morte para a população.

Que belo ver o presidente da Bolívia chorar ao ouvir o hino nacional que diz “antes morrer do que ser escravo”.

Lembremos, com Antônio Gramsci, em “Odeio os indiferentes”, que: “Os que semeiam pânico não são uma invenção moderna”.

De fato, a extrema-direita, para ascender, sempre se valeu do medo, do pânico, do preconceito. Jamais da confiança, da tolerância, da abertura ao outro e à outra.

No momento em que o desemprego atinge as maiores taxas históricas no Brasil, com mais pessoas desempregadas do que empregadas, vale lembrar – para as eleições que se aproximam – estas palavras de Gramsci na obra antes citada: “O que é a liberdade para quem não sabe o que fazer dela, para quem ela não é um valor econômico, a possibilidade de trabalhar, de produzir, de alguma maneira? A liberdade individual, a segurança contra os abusos de autoridade são conquistas do trabalho, da produção, das sociedades bem organizadas”.

Lembremos disso no próximo (neste, daqui a pouco) domingo, nas urnas e às urnas!